quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Mudança dos Tempos?

Todos os dias nossos sentidos despejam no consciente, milhares de informações de tudo o que vemos, sentimos, ouvimos.
Alguns fatos se perdem durante o percurso da vida. Outros ficam guardados na memória.
Inexplicavelmente, em determinados momentos da vida, alguns vem à tona. Quando são ruins a gente logo trata de pensar em outra coisa. Agora, quando são bons, trazem-nos uma nostalgia tão gostosa que dá vontade de atravessar dimensões para fazer tudo de novo. Esses ficam guardados a sete chaves.
A impressão que se dá - isso não inclui todas as pessoas - é de que nossa melhor fase passou. E quanta gente comenta, “nós éramos felizes e não sabíamos”, em nossa época era diferente...
De fato vivemos uma época, marcada pela violência, pelo rancor, pelo ódio.
A instituição família, alicerce da sociedade, cada vez mais naufragada pela falta de compromisso. A desvalorização do ser humano, a ridicularização do corpo da mulher (...)
Nossa, quanta coisa! Mas não quero usar este espaço para falar de coisas ruins.
Me convenço todos os dias de que mesmo em meio a este turbilhão, é possível ser feliz.
Lembro-me que todos os dias esperava meu pai chegar do trabalho no portão de casa. Sempre no mesmo horário, finalzinho da tarde, no repousar do sol.
Onde estivesse, entre os amigos ensopando-se de areia, imitando o Jaspion, brincando de ser Giraia, Rambo, seja lá o que for, quando ele apontava na esquina, aquele menino franzino, magrelo (dava até para ver o raio-x das costelas), sem camisa, descalço, corria como uma flecha pela rua de terra, batendo o calcanhar na nuca e do alto dos seus seis, sete anos, pulava feito uma rã no colo do Pai, cansado, com a roupa de fábrica manchada pela graxa.
Um momento de ternura, uma recordação com gosto de saudade, agora uma reflexão.
Certamente hoje não faria mais isso com minha mãe (meu pai já está no céu) porque com toda certeza no mínimo ela teria uma fratura exposta se eu pulasse no colo dela.
Mas pensando comigo, se um dia tivemos a capacidade sentimental de expressar-nos desta maneira, porque temos dificuldades em manter aquecidas nossas relações, de expressar sem nenhuma máscara aquilo que sentimos?
Acredito nas mudanças do tempo. O Tempo não Pára dizia Cazuza. Sim o tempo pode mudar. Mas cronologicamente. Não existem tempos diferentes.
A diferença está em nós. Ficamos diferentes com o passar dos anos, evoluindo ideologicamente, culturalmente, espiritualmente ou indiferentes ao nosso progresso pessoal impondo barreiras, limites, preconceitos, e privando nosso coração de expressar seus sentimentos, de amar com intensidade e se encantar com as coisas simples da vida. Estamos perdendo nosso encanto!
A mudança que queremos em nossa família, nos relacionamentos, no trabalho, coloca em evidência a urgência de que precisamos fazer a ligação da nossa existência com a época em que vivemos.
Se um dia vivemos felizes, nostálgicos, este tempo cronológico passou. Mas sempre é tempo para ser feliz, para compreender, para recomeçar. Sempre é tempo de amar, amar a vida, o coração das pessoas, viver amizades sinceras, relacionamentos comprometidos, ser cidadão com responsabilidade. Sempre há tempo para as guerras de travesseiros, escorregar no azulejo ensaboado, passar baton no durminhoco da excursão, estar apaixonado e mandar cartinhas de amor, porque os tempos não são diferentes. As pessoas sim se diferenciam e influenciam ao seu modo seu tempo, sua época!


Na foto 1 - Eu e meu Pai no Clube de Campos da GM - Março de 1986
Foto 2 - Eu e minha mãe no quintal de casa - Março de 1986

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